Blog do Evaldo José
http://www.evaldojose.globolog.com.br/ - 01/08/09 18:59:35 - 05/25/08 23:48:56
VEJA A PROVA DE FILOSOFIA DA UFRJ, DESTE DOMINGO, COM GABARITO.
DUAS QUESTÕES, DAS QUATRO DA PROVA, BEM ELABORADAS.
PENSO QUE A FEDERAL DO RIO DEVERIA SER MAIS CLARA NO SEU EDITAL E NÃO COMPLICAR A VIDA DE TANTOS ALUNOS DAS ESCOLAS PÚBLICAS QUE, OU NUNCA VIRAM FILOSOFIA NA VIDA, OU NÃO TIVERAM ACESSO A ESSES AUTORES PORQUE SEUS PROGRAMAS NÃO CONTEMPLAVAM. CONFIRA:
Considere a reprodução abaixo, do quadro do pintor René Magritte intitulado A Traição das Imagens:
A tradução para o português do texto presente no quadro é: Isto não é um cachimbo.
Acerca do quadro de Magritte, o filósofo Michel Foucault teceu as seguintes considerações:
Ora, o que produz a estranheza dessa figura não é a contradição entre a imagem e o texto. Por uma boa razão: não poderia haver contradição a não ser entre dois enunciados, ou no interior de um único e mesmo enunciado. Ora, vejo bem aqui que há apenas um, e que ele não poderia ser contraditório, pois o sujeito da proposição é um simples demonstrativo. Falso, então, porque seu referente muito visivelmente um cachimbo não o verifica? Mas quem me dirá seriamente que este conjunto de traços entrecruzados, sobre o texto, é um cachimbo? Será preciso dizer: meu Deus, como tudo isto é bobo e simples; este enunciado é perfeitamente verdadeiro, pois é bem evidente que o desenho representando um cachimbo não é, ele próprio, um cachimbo? E, entretanto, existe um hábito de linguagem: o que é este desenho? É um bezerro, é um quadrado, é uma flor. Velho hábito que não é desprovido de fundamento: pois toda função de um desenho tão esquemático, tão escolar quanto este é a de se fazer reconhecer, de deixar aparecer sem equívoco nem hesitação aquilo que ele representa. (FOUCAULT, Michel. Isto não é um cachimbo. Trad. de Jorge Coli, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, p.19-20)
Com base no texto de Foucault, apresente uma razão que justifique afirmar:
a) Que o texto presente no quadro de Magritte é um enunciado verdadeiro.
Pode-se afirmar que o texto é um enunciado verdadeiro na medida em que o desenho do cachimbo é um desenho, e não um cachimbo.
b) Que o texto presente no quadro de Magritte é um enunciado falso.
Pode-se afirmar que o texto é um enunciado falso na medida em que, por hábito, consideramos um desenho tão escolar como sendo a coisa que ele representa e não apenas uma representação
2 - É comum, entre filósofos, admitir-se que toda tese filosófica deve estar apoiada em razões que a justifiquem, e que justificar uma tese é apresentar argumentos. Tais argumentos consistiriam em um discurso no qual, a partir de alguns itens supostos, outros itens resultam. Os itens supostos são chamados de premissas do argumento, e o que resulta é denominado sua conclusão. Alguns argumentos são chamados de argumentos dedutivos. Nesse tipo de argumento, dada a verdade das premissas, a conclusão necessariamente é verdadeira. Outros são chamados de argumentos
indutivos. Nesses, dada a verdade das premissas, a conclusão provavelmente é verdadeira.
Considere então os seguintes argumentos:
[A]
Todo animal é mortal
Todo homem é animal
Logo, todo homem é mortal
[B]
Todos os cisnes até hoje observados são brancos
Jojô é um cisne
Logo, Jojô é branco
Com base na explicação dada, identifique qual dos dois argumentos, A ou B, é um argumento dedutivo. Justifique sua resposta.
O argumento A é um argumento dedutivo, porque a verdade de suas premissas garante que a conclusão seja necessariamente verdadeira.
3 - De acordo com o filósofo Immanuel Kant, o modo de pensar cético busca tornar incertos os nossos conhecimentos. No entanto, esse modo de pensar, ainda segundo Kant, não pode ser legitimamente generalizado, isto é, não pode justificar a afirmação de que tudo o que consideramos conhecimento é apenas aparência de conhecimento. Kant justifica assim tal impossibilidade: para dizer que tudo o que consideramos conhecimento é apenas aparência de conhecimento, o cético distingue entre aparência de conhecimento e conhecimento.
Isso revela, portanto, que ele possui um conhecimento que lhe serviu para efetuar tal distinção.
Com base no texto acima, responda:
a) Segundo Kant, de qual pressuposto depende a afirmação cética: tudo o que consideramos conhecimento é apenas aparência de conhecimento?
Segundo Kant, o pressuposto de que depende a afirmação cética é que se tenha o conhecimento da distinção entre conhecimento e aparência de conhecimento.
b) Supondo que a mencionada afirmação cética seja incorreta, é possível daí imediatamente concluir que não podemos nos enganar em matéria de conhecimento? Justifique sua resposta.
Não, pois do fato de termos algum conhecimento não decorre que sempre estejamos corretos ao considerar algo como conhecimento.
4 - No trecho que segue, extraído da obra do filósofo Platão intitulada A República, o personagem Gláucon apresenta o que seria um discurso corrente sobre a justiça e a injustiça:
Dizem que uma injustiça é por natureza um bem, e sofrê-la, um mal, mas que ser vítima de injustiça é um mal maior do que o bem que há em cometê-la. De maneira que, quando as pessoas praticam ou sofrem injustiças umas das outras, e provam de ambas, lhes parece vantajoso (...) chegar a um acordo mútuo, para não cometerem injustiças nem serem vítimas delas. Daí se originou o estabelecimento de leis e convenções entre elas e a designação de legal e justo para as prescrições da lei. Tal seria a gênese e essência da justiça, que se situa a meio caminho entre o maior bem não pagar a pena das injustiças e o maior mal ser incapaz de se vingar de uma injustiça. (...) Aqui tens, ó Sócrates, qual é a natureza da justiça, e qual a sua origem, segundo é voz corrente. (PLATÃO. A República. Trad. de Maria Helena da Rocha Pereira, Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1987, p.55-56; 359a-b)
De acordo com a exposição de Gláucon, responda:
a) Agir em conformidade com as prescrições da lei é, segundo a mencionada voz corrente, um bem maior, menor ou igual ao que há em cometer uma injustiça impunemente?
Segundo a mencionada voz corrente, agir em conformidade com as prescrições da lei é um bem menor do que o que há em cometer uma injustiça impunemente.
b) Por que, do ponto de vista da mencionada voz corrente, a justiça não pareceria vantajosa caso ser vítima de uma injustiça sem poder dela se vingar fosse considerado um mal menor do que o bem que haveria em praticá-la impunemente?
Segundo a mencionada voz corrente, a justiça resulta do acordo entre as pessoas por abrir mão tanto do bem que há em cometer a injustiça, quanto do mal que há em sofrê-la. Se esse mal fosse considerado menor do que aquele bem, pareceria vantajoso antes tolerar o mal menor em nome de preservar o bem maior, do que renunciar a ambos pela justiça.
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